quinta-feira, abril 21, 2005

efeito offline...

A noite que seguia era mais uma copia perfeita de noites passadas. O vento soprava suave enquanto o coqueiro lhe seduzia numa dança hipnótica à janela do seu quarto. Ele tinha a expressão do mistério, seus olhos desnudavam o mundo e se perdiam em abstrações... Quantas vezes estivera distante daquilo que realmente o remetesse ao concreto ele não saberia dizer. Era filho de Platão. Já estava ali há bastante tempo. Vozes interagiam numa conversa agradável naquele deserto em que se encontrava. Ele era capaz de prever tudo o que seria dito e isto não o entediava, uma vez que não era o óbvio que predominava naquele devaneio encantador, era a manifestação de seus anseios em cada palavra que chagava aos seus ouvidos. Há muito o relógio havia deixado de funcionar. Seu instinto o impelia a dirigir aquele filme que se projetava a seu dispor. Os corpos deveriam se aproximar, mas os lábios jamais se encontrariam, àquele mundo eram proibidas as sensações. O diretor ordenava, mas a cena não findava como desejava. A situação desconfortável se intensificava a cada replay. Ele estava sufocado. Até que um som inesperado o serviu de passaporte de volta para o seu quarto. No monitor ligado alguém preenchia a sua lista vazia de contatos virtuais. Chegara então o momento em que lhe era apresentada a chance de conhecer um mundo além dos seus limites platônicos. Tudo o que precisava fazer era iniciar a conversa assim como o tinha feito no deserto. Mas de alguma forma ele sabia que em realidades diferentes, abordagens diferentes se faziam necessárias. O relógio voltara a funcionar. Ele não sabia o que dizer. Parecia tão perto, tão simples... Bastaria dizer “oi”. Duas letras digitadas numa fração de segundo lhe custavam um esforço imensurável. Estaria ele condenado ao estigma dos fracassados? Quando enfim o garoto complicado se convencera a mudar o curso do destino... O contato já não fazia mais parte das possibilidades concretas de que dispunha. Sua lista estava vazia. Sua chance se adiava mais uma vez para um futuro indeterminado. Mais um conflito o vencia como o fizera repetidas vezes. E ele sabia bem disso... Do lado de fora da janela o vento soprava suave enquanto o coqueiro dançava num ritmo lúdico. E o que restava naquela noite solitária eram apenas os mesmos ecos que o remetiam às abstrações de um deserto encantador.

2 Comments:

Anonymous Luciana said...

Te encontrei no orkut ha tempos... Adorei o q vc escreve... keria t adicionar no MSN, mas penso q vc n aceitaria alguem do nada nos teus contatos...

6:24 PM  
Blogger garoto complicado said...

mas você pensou errado!
:)
pode adicionar!

9:35 PM  

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